
A Trupe Cirandá, coletivo artístico idealizado pelas irmãs Nathália e Nayara Dias, as Gêmeas Dias, inicia em setembro uma nova circulação de “Ciranda”, espetáculo circense-musical que celebra a diversidade cultural brasileira a partir do encontro entre circo, música, dança e diferentes manifestações da cultura popular. Contemplado pelo Prêmio de Fomento ao Circo da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, o projeto ganha agora uma nova versão e será apresentado gratuitamente em cinco territórios da capital paulista, entre setembro e outubro.
A circulação começa no dia 04 de setembro (sexta-feira), às 14h30, no CEU Campo Limpo, e segue pela Casa Capuêra Novo Mundo, no Parque Novo Mundo (30/09); Casa Cultural Querosene, no Morro do Querosene (02/10); Comunidade Cultural Quilombaque, em Perus (03/10); e Casa Mestre Ananias, na Bela Vista (25/10). Além das apresentações, o projeto inclui oficinas de percussão e a Ciranda dos Saberes, rodas de conversa com mestres da cultura popular e do circo, ampliando o intercâmbio com as comunidades de cada território.
Criada em 2024, a Trupe Cirandá já levou o espetáculo a diversas unidades do Sesc São Paulo e Rio de Janeiro e integrou o Circuito Sesc de Artes 2025. A conquista do Prêmio de Fomento ao Circo permitiu ao coletivo revisitar a obra e aprofundar uma pesquisa que já estava presente desde sua criação.
“Quando criamos ‘Ciranda’, já tínhamos muitas ideias que queríamos desenvolver, mas não tínhamos os recursos necessários. O Fomento nos deu a oportunidade de finalmente trazer mais fundamento artístico para tudo aquilo que imaginávamos desde o começo. Pudemos trabalhar com direção artística, coreografia e direção musical, aprofundar a pesquisa dos ritmos, aperfeiçoar os figurinos e criar novos elementos para a montagem. O espetáculo ganha agora um grande amadurecimento, tanto visual quanto conceitual”, explica Nayara Dias.
Com direção artística de Ronaldo Aguiar, direção musical de Renato Macedo e coreografia de Alisson Lima, “Ciranda” parte da própria geometria do picadeiro para falar de união, continuidade, igualdade e coletividade. A roda aparece tanto na estrutura da encenação quanto nas manifestações populares que atravessam o espetáculo, em um diálogo entre ciranda, coco, jongo, capoeira, samba de roda, maracatu e frevo.
No picadeiro, performances aéreas e de solo também exploram essa circularidade por meio da roda Cyr, lira aérea, bambolê, corda lisa, tecido acrobático, pernas de pau e outros elementos circenses. Música ao vivo, dança e acrobacia se encontram em uma montagem de 50 minutos que convida o público não apenas a assistir, mas a se reconhecer como parte dessa roda.
O processo de reformulação permitiu ainda que o elenco aprofundasse o estudo das origens e dos significados das manifestações presentes na obra.
“Antes, cada artista chegava com a sua própria bagagem e com aquilo que conhecia desses ritmos. Desta vez, conseguimos sentar juntos, estudar e entender de onde eles vêm, o que representam e por que determinados movimentos existem. Não era apenas aprender a dançar o coco, por exemplo, mas compreender sua história, seu contexto e o que aquele movimento carrega. Isso engrandeceu muito o espetáculo e também a nossa relação com a cultura que estamos reverenciando”, conta Nayara.
Esse aprofundamento também passa pelo olhar do diretor artístico Ronaldo Aguiar. Nordestino, ele trouxe para a criação novas referências ligadas às manifestações populares e ao carnaval, contribuindo para que o grupo estabelecesse uma relação ainda mais cuidadosa com os elementos culturais que atravessam “Ciranda”.
“A gente entendeu que precisava falar dessas manifestações com mais propriedade, reverência e respeito. Somos aprendizes diante de mestres que carregam esses saberes há décadas. Essa circulação também é uma oportunidade de chegar até eles, ouvir, aprender e reconhecer quem mantém essas tradições vivas”, completa Nayara.
A escolha dos cinco espaços que recebem a circulação faz parte do próprio conceito do projeto. A Trupe buscou descentralizar a programação cultural e chegar a regiões e comunidades que nem sempre têm o mesmo acesso à oferta artística concentrada nas áreas centrais de São Paulo. Também foram priorizados espaços com forte atuação comunitária e territórios próximos aos mestres convidados para participar das atividades.
“A ideia é abrir a roda para quem ainda não teve a oportunidade de chegar até o nosso trabalho. Já circulamos bastante, inclusive por espaços importantes como o Sesc, mas agora conseguimos escolher diretamente os territórios onde queremos estar. Queremos sair desse circuito mais centralizado e chegar às famílias, às comunidades e aos lugares onde a cultura popular já está viva no cotidiano”, afirma Nayara.
Para a artista, levar um espetáculo inspirado na cultura popular justamente para esses territórios também exige uma postura de escuta. “Quem vive e mantém muito dessa cultura são justamente essas comunidades. Muitos dos mestres estão nesses lugares. Então chegamos com muito respeito, porque não estamos indo ensinar cultura popular para ninguém. Estamos indo compartilhar o nosso trabalho e, principalmente, aprender e trocar com pessoas que já conhecem profundamente aquilo sobre o que estamos falando”, destaca.
A circularidade que dá nome e forma ao espetáculo, portanto, ganha ainda mais força nessa etapa. “O significado da roda não muda, ele se amplifica. Ciranda sempre falou de encontro, igualdade e coletividade, e agora conseguimos levar isso para novas regiões e novas comunidades. Queremos que essa roda realmente esteja aberta para todo mundo”, diz.
A programação gratuita vai além das apresentações de “Ciranda”. A cada passagem, o projeto promove uma oficina de percussão, ministrada pelo músico Gedeão Soares, voltada para participantes a partir de 12 anos. A atividade propõe uma vivência prática com instrumentos e fundamentos rítmicos ligados à cultura popular brasileira.
Outro eixo é a Ciranda dos Saberes, realizada após os espetáculos. A atividade promove rodas de conversa com mestres da cultura popular e do circo, estimulando um diálogo intergeracional sobre memória, tradição, transmissão de conhecimento e os desafios da manutenção dessas manifestações.
A relação dos convidados com os territórios foi um dos pontos considerados na construção da programação, reforçando a proposta de aproximar a circulação das comunidades e de quem atua diretamente na preservação e renovação desses saberes.
Todas as apresentações contarão ainda com intérprete de Libras integrada à cena, acompanhando as músicas e a movimentação do espetáculo. O projeto também prevê uma exibição virtual, que será disponibilizada posteriormente pelas redes sociais dos espaços parceiros, ampliando o acesso para quem não puder acompanhar a circulação presencialmente.
“Nosso desejo é que as pessoas saiam entendendo a potência daquilo que é nosso. A gente vive em um cenário em que muitas vezes as referências estrangeiras acabam sendo mais valorizadas, quando temos uma riqueza enorme na cultura popular brasileira e no nosso circo. ‘Ciranda’ é uma homenagem a essa potência, mas também à ideia de comunidade, de fazer junto, de olhar para o outro e entender que ninguém constrói nada sozinho”, resume Nayara.
Idealizada pelas Gêmeas Dias, a Trupe Cirandá nasceu do desejo de pesquisar, vivenciar e celebrar a cultura popular brasileira em suas múltiplas expressões. O coletivo reúne artistas do circo e da música em um processo colaborativo e autoral que encontra na circularidade do picadeiro e das danças de roda seu principal ponto de conexão.
A companhia já passou por diversas unidades do Sesc São Paulo e Rio de Janeiro e integrou o Circuito Sesc de Artes 2025. Em 2026, além do Prêmio de Fomento ao Circo da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, “Ciranda” foi contemplado pelo Projeto Pulsar, do Sesc Rio de Janeiro.
À frente do coletivo estão Nathália e Nayara Dias, que completam 21 anos de trajetória artística. As Gêmeas Dias iniciaram seus estudos como acrobatas aéreas em São Bernardo do Campo e, desde então, construíram uma carreira que atravessa circo, dança, teatro e música.
A dupla passou por temporadas internacionais na rede de hotéis TUI Entertainment, na Turquia e no Egito, e pelo circo italiano Rony Roller. No Brasil, integrou espetáculos de companhias como Cia. Diálogos Acrobáticos, Parlapatões, Circo Vox e Universo Casuo, além de turnês de O Teatro Mágico. Em 2022, as artistas protagonizaram as personagens Uirapuru e Nhanderuvussu no espetáculo musical “Uirapuru”, apresentado no Rock in Rio, sob direção artística de Kiko Caldas.
Para 2027, a Trupe já começa a pesquisar os caminhos de um novo espetáculo, mantendo a cultura popular como eixo central, mas voltando o olhar para manifestações ligadas ao litoral e às águas.
“Entendemos que ‘Ciranda’ já teve uma trajetória muito bonita e circulou bastante. Agora queremos começar a pesquisar um novo espetáculo, ainda com esse elenco e com a cultura popular como essência, mas talvez mergulhando nos ritmos do litoral, nas águas e nos seres das águas. Queremos também chegar mais perto da ciranda em sua origem, ir até Itamaracá e aprofundar essa pesquisa. Ainda estamos começando a entender esse próximo passo, mas sentimos que há um caminho muito bonito pela frente”, adianta Nayara.
Serviço – “CIRANDA” | GÊMEAS DIAS E TRUPE CIRANDÁ
04 de setembro (sexta-feira), às 14h30
CEU Campo Limpo, Campo Limpo
Convidadas: Mestra Sol e Erica Stopel
30 de setembro (quarta-feira), às 19h
Casa Capuêra Novo Mundo, Parque Novo Mundo
Convidado: Milan
02 de outubro (sexta-feira), às 19h
Casa Cultural Querosene, Morro do Querosene
Convidada: Elsa Wolf
03 de outubro (sábado), às 17h
Comunidade Cultural Quilombaque, Perus
Convidados: Vitor Trindade e Paola Musati
25 de outubro (domingo), às 16h
Casa Mestre Ananias, Bela Vista
Convidados: Minhoca e Claudio Santos
Entrada gratuita
Duração: 50 minutos
Classificação: Livre
